Crónicas  /  Uma Coisa em Forma de Assim  /  Um manifesto pró-Dantas

Um manifesto pró-Dantas

Sessenta anos volvidos sobre a almadanadesca rapaziada de que o escritor foi objecto, estão reunidas muitas das condições que tornam viável, imperativo mesmo, o surgimento de um desagravante Manifesto Pró-Dantas. A efeméride que se aproxima (o centenário do nascimento de Júlio Dantas ocorre em 19 de Maio) será um excelente pretexto para que dramaturgos, encenadores, actores, críticos, poetas, romancistas, jornalistas, empresários culturais de vária índole, fadistas, até, homenageiem a memória do inspirado autor de Um Serão nas Laranjeiras, cuja obra o olvido parece rodear encarniçadamente. Poderes públicos em mal de comemoração têm, agora, uma ocasião natural e única de recordarem à Nação que Júlio Dantas existiu – e como! Mas a ocasião que a efeméride proporciona é apenas uma das muitas que, quanto a nós, se encontram reunidas à espera de um qualquer impulso vivificador. Infelizmente, como sempre sucede neste País, há o hábito incivil de se aguardar que alguém, primeiro, rompa o envergonhado e ignaro silêncio colectivo, antes de se promover ou ajudar a promover seja o que for. Contrariar tal hábito é o que hoje, modestamente, nos propomos fazer.

Dantas não é apenas uma data, é uma tradição e o seu requintado culto. Só o desconhecimento da sua obra pode levar ao olvido dela. Na realidade, nem de olvido se trata. Como poderá olvidar-se o que se não conhece ou não se quer conhecer? Agora que a tradição a que Júlio Dantas rendia culto parece começar a reafirmar-se, tenuemente embora, na conturbada vida portuguesa de hoje, as condições objectivas para a – chamemos-lhe assim – revalidação da sua obra encontram-se notavelmente aumentadas. E não será qualquer Almada de fresca data que a poderá impedir ou retardar!

L’esprit chevaleresque é a linfa que corre por toda a obra do Mestre. L’esprit chevaleresque, expressão que, em português, não encontra equivalente suficientemente nuancé e, portanto, condigno, é um complexo feixe de disposições afectivas e mentais e de enquadramentos civilizacionais que, no dizer de Gnoss, «põem o chevalier a uma distância do homem comum pelo menos dupla da distância a que este se mantém do pobre bruto (pauvre brute)». (Em De Ia Brute au Chevalier (Manosque, 1957), Gnoss chega à surpreendente verificação – «uma distância […] pelo menos dupla da distância (etc.)» – através de complicadas quantificações do que ele chama «os gestos de civilização», conceito este que, por surpreendente que pareça, parte, para a sua formulação, da consideração morfológica de actividades quotidianas tão triviais como o comer, o defecar, etc., hierarquizadas, por ordem de complexidade, numa escala que sobe, na expressão do próprio Gnoss, «du chier au sonnet de Ronsard», isto é – perdoe-nos o leitor! – «do cagar ao soneto de Ronsard».)

É nesta perspectiva que a obra de Júlio Dantas tem de ser reconsiderada – e não através de «quartilhos» de Marialva, como, apressadamente, certos sociólogos da comarca ensaiaram… Bem sabemos que os «adereços», os décors e a própria temática da obra dantasiana se revestem de uma aparência, de um colorido e de um anedotismo que, por vezes, os podem aparentar à garridice e superfluidade de um certo neomarialvismo de raiz nacional-populista tão ao gosto dos tempos do autor, mas isso é, afinal, o que de perecível tem qualquer obra. Por detrás da vasta galeria das personagens de Júlio Dantas – e eis o que Almada, nacionalista transviado, não viu – pulsa sempre, mas sempre, o robusto coração português!

Está criado, actualmente, bom número de condições, objectivas e subjectivas, para que a memória de Dantas seja desagravada (o que, em vida, fazendo prova de um chic imbatível, o escritor nunca permitiu!) mediante manifestações comemorativas do próximo centenário do seu nascimento e, desiderato final, através da elaboração, se possível colectiva, de um Manifesto Pró-Dantas (a submeter à subscrição de todos os intelectuais portugueses), manifesto que, sem violências verbais desnecessárias, reponha Júlio Dantas no lugar que, na verdura dos seus anos, Almada Negreiros – esse nacionalista que havia de transviar-se! – lhe quis, despudoradamente, tirar!