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Os prémios

Sei de lutas encarniçadas pela disputa de uma candidatura ao prémio Nobel. Isto sem ter de sair de Portugal. De lutas feias, com insinuações torpes, com segredos canalhas murmurados ao ouvido dos adeptos sobre a nenhuma qualidade dos candidatos rivais. Já viram, com certeza, que estamos em literatura, mais, que navegamos na ficção. Listas de apoiantes circulam, os jornais ampliam-nas na sua repercussão, naquilo a que, por nostalgia ou ignorância, chamamos de tertúlias, as candidaturas são (ou eram) discutidas, sopesadas. E tudo, tudo sem qualquer esperança, porque já se sabe, não é?, que  Portugal está fora das áreas culturais privilegiadas. E, então, os fernandos, os fernandocas dizem, para se consolar, «a minha pátria é a língua portuguesa», tirada que sabe a manteiga aquecida comida em jejum. E depois, quando o Nobel sai, costumamos ouvir dizer: «Que descaro! Darem o Nobel a um ilustre desconhecido!» ou, no menos mau dos casos, «a um escritor de segunda!»

Já ouvimos explicar dezenas de vezes que o prémio tal foi criado de propósito para contemplar o escritor fulano, o que é, pelo menos, uma insinuação venenosa.

Há, nos bastidores deste teatro dos prémios, uma «política» e uma murmuração constantes. É que, meus amigos, a literatura é uma actividade que preenche os intervalos entre prémios. Eu não estou no segredo dos deuses, mas algo de malsão deve haver em torno dos prémios, não nos prémios propriamente ditos. Reparem que há sempre quem se mostre insatisfeito, principalmente quanto mais avultado é o valor monetário do prémio. Nem o García Marquez escapou. Nem o maluquinho do Sartre quando recusou o Nobel O primeiro é frequentemente acusado de oportunista; o segundo era, bem no fundo, um vaidosão.

Mas quem foi que disse que os prémios ou se aceitam ou se recusam?

Ainda há poucos dias, havia 5 sujeitos a sofrer (a acreditar nas notícias) por causa da atribuição do maior prémio literário espanhol: o Cervantes, que sobe a 10 milhões de pesetas, o que ainda gira à volta de 9 mil contos. Dá jeito não dá? E quem havia de o ganhar? Rafael Alberti. Sabem qual foi o comentário que eu atirei cá para fora?

– E logo a «tia» Albertina!

É que o «meu» candidato era Camilo José Cela, em relação ao qual Alberti teve a deselegância de dizer que ele era ainda novo e que ia, certamente, ganhar o Cervantes um ano destes…

Mas o mais divertido, nesta edição do Prémio Cervantes, foi a Academia Colombiana ter apresentado a candidatura de Alberti depois de apresentar a de Jorge Luis Borges, que já havia ganho o Cervantes uns anos atrás. Alô, Colômbia, então esses ficheiros? Claro que o Alberti chamou um figo ao Cervantes, no que, pronto, fez muito bem, ninguém tem nada com isso.

A ilusão de que um prémio premeia o melhor é das mais enganosas. Para já, o que é ser o melhor? Winston Churchill, que ganhou em 1953 o Nobel da Literatura (ele escreveu ficção sobre a Guerra dos Boers), entrará, acaso, na história da literatura? Tenho as minhas dúvidas. No entanto, alguém me disse: «Olhe que é ficção e da boa!», com o que, é claro, não me desfez as dúvidas.

Um prémio é contingente. A «política» da sua atribuição pode ser transparente ou tenebrosa. A unanimidade, pelo menos por parte do público, é que nunca se consegue. E como poderia conseguir-se se somos (todos) tão diferentes uns dos outros? Não é verdade que Brejnev teve, sem dúvida, a unanimidade do júri na atribuição do prémio Lenine da literatura pela publicação das suas Memórias? E o público de lá, que pensou disso?

A Academia Sueca engana-se muito? A Associação Portuguesa de Escritores também? O Pen Club igualmente? O Ministério da Cultura espanhol aspas aspas?

Deixem lá, não fervam de indignação nem de entusiasmo. Antes de se entregarem aos desencontros das paixões, pensem que há uns quantos sujeitos que ficam imensamente contentes por receberem umas centenas ou uns milhares de contos e entrarem na imortalidade com um diploma na mão. E sabem como a imortalidade se revela sensível a esses documentos.