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Miró, mirones

Há muito que, para os mirones, Miró estava na moda e, cumulado de homenagens e honrarias, diga-se que bem as mereceu.

Miró passou pela vida – morreu, há semanas, com 90 anos – como um inocente. Havia nele a atitude do rapazinho que lança ao ar passarinhos de papel e fica, extasiado, a seguir-lhes o voo. Salvo erro, foi ele quem disse que a arte moderna havia começado nas grutas de Altamira. Era um primitivo, não um naïf. Procurava o essencial ou, melhor, o essencial saía-lhe das mãos como que por milagre. O essencial da cor, do desenho, da escrita. Porque Miró foi um dos pintores/escultores que, pintando ou esculpindo, mais escreveu. E que escreveu ele? Que tudo pode ser promovido, por toques de mágica, à categoria de objecto de arte, que nada é canónico, que arte e vida estão de tal modo entrosadas que é impossível saber onde acaba uma e começa a outra. A sua imaginação nem era imaginação, era um ritual de homenagem ao mundo maravilhoso que o rodeava.

Quando lhe perguntaram (um mirone, claro) «Você é partidário da arte pela arte ou prefere a definição utilitarista de Belinsky de que a arte é só um meio para usar como instrumento de mentalização do povo? Que incidência tem a política na sua obra? A arte deve ser para o povo?», Miró, a esse mirone, respondeu da única maneira que lhe era possível: «Tudo isso são questões acidentais. O que interessa é a formação de um homem novo». E, com esta resposta, dava, ao mesmo tempo, o que era a arte/vida para ele e fechava a porta às consabidas especulações sobre para onde se deve «orientar» a arte. E para «a formação de um homem novo» Miró, pese embora aos mirones, deu um contributo inestimável.

É que ele sabia, como ninguém, que o homem é filho do menino.