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Lede tudo, sobretudo as obras…

Lede tudo, sobretudo as obras sobre as quais haveis lido tudo – ou quase tudo, porque é difícil ler tudo o que sobre certas obras se vai incessantemente publicando. Mal um sujeito se precata e, zás!, outro estudo, outra biografia, outra exegese vem por aí abaixo a ver se lhe acerta na cabeça. Estou a pensar no pobre do Pessoa e, pensando nele, dedico-me a imaginar quantos homens e mulheres conhecerão mesmo a obra pessoana em si, quantos maduros se entregarão ao prazer de ler os poemas e as prosas de um homem com o qual a bem-pensância nacional, sempre à procura de tralha para mobilar e decorar a sua cabeçorra, fingiu, durante anos, estar familiarizada.

Estou a pensar no Cesariny, de quem todos falam, surrealismo para aqui, surrealismo para acolá, mas que, no fundo, poucos conhecem. Se o conhecessem, amá-lo-iam; se o amassem, haviam de lê-lo pela pura necessidade de o ler.

É que a intimidade com uma obra (literária, claro) não se faz por aproximações sucessivas a ela através do que foi e vai sendo escrito por outros a propósito dessa obra. Grosso modo, é assim mesmo. E, não raro, a obra sai desfigurada ou, pelo menos, com outra figura, quando entre ela e nós se interpõem demasiados explicadores, biógrafos, exegetas. A obra é a obra e nada a pode substituir e ninguém pode arrogar-se o direito de possuir a explicação total dela. Aliás, uma obra não se explica, decifra-se. E essa decifração dá-se quando a nossa intimidade com ela foi alcançada à nossa custa, foi resultado de um lento, longo amor por ela.

Hoje lê-se muito, lê-se mal e depressa. E principalmente lê-se muita coisa que não se devia ler, que não adianta um chavo seja para o que for. Mas dizem-me que tem de ser assim mesmo, que é ao fim de se ler muito e à toa que o gosto, o discernimento e o selectivo sentido crítico se formam numa pessoa. Pode ser.

Mas afinal que é que se vai buscar à leitura da coisa literária? Eu continuo a calçar a minha bota de elástico: vai buscar-se prazer, proveito e exemplo. E outra coisa ainda, que nos é dada por acréscimo: a consciência de que não estamos sozinhos no mundo, a certeza de que há mais mundos. E isso, temos de concordar, dimensiona-nos correctamente, evitando que descubramos a pólvora todos os dias ou saltemos como estridentes araras para o ombro do desgraçado que nos passar ao lado.

É sempre emocionante saber que um Poeta pode ir parar com os ossos aos Jerónimos, mas uma pergunta me inquieta: será que a sociedade pensa que, com esse acto (com certeza solene e público!), está a fazer justiça ao mesmo homem a quem denegou, escandalosamente, o primeiro prémio num concurso literário? Dir-me-ão: isso foi há muito, nos tempos negros da nossa história recente. Deixem-me ser pessimista: é que a sociedade que não teve a lucidez de reconhecer e premiar um génio é, para mim, na sua cegueira e pasmaceira, exactamente a mesma que, hoje, fascismo (ou o que lhe queiram chamar) à parte, quer ossificá-lo nos Jerónimos. Se não, vejam como ela – a sociedade – continua a guarnecer a sua cabeçorra com os mais lindos ornamentos da nossa arte e da nossa literatura, como ela continua a sentir a necessidade de TER GESTOS, de render preito e homenagem à cultura, que hoje é tudo, como sabeis: descascar cebola ou escrever uma obra…