Velhos

Eu estou ao lado dos velhos, no limiar deles. Até o trimesinho Afonso, meu filho, com sua desdentadura, velho é e, praza a Deus, velho será. Oxalá se conserve sempre velho, não na decrepitude que o há-de avassalar, mas na sageza. É a necessidade mais elementar que o acicata à comunicação. Tem fome, chora; borra-se, chora; quer colo, chora. Uma perfeição de design da velhice este Afonso!

Velhos deixam para trás revoadas de livros, de objectos, de amigos, de mortos. Há uma altura em que começam a dar o que têm. Não por generosidade, mas por medo de se distraírem do fio da vida com os enredos não importantes que as coisas estão sempre a tramar para eles. Outros comportam-se diferentemente, abarrotam-se de coisas, de casos. Põem anúncios, respondem a anúncios, coleccionam elefantes, mochos, cenas de porrada, capicuas. Recordam francesas. Fecham a sete chaves libras de cavalinho. Constipam-se com novas correntes de ar. Mas não são verdadeiros velhos. Apenas refinaram a intolerável juventude que havia neles.

Velhos rolados pelo tempo – esses, sim! Capazes de ficar um dia a olhar para um muro, para um sentimento antigo, não querem perder a pitada que ainda lhes cabe de vida. O resto, para eles, é tralha – a que tiveram ou aquela com que, alienados de juventude, sonharam.

 

«Velhos»: A Luta, coluna «A Comarca», 16 de Setembro de 1976.