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Uma olhadela para António Nobre

Pode dizer-se que Nobre inaugura na poesia portuguesa certa «conversa» ainda muito actual. Pode dizer-se que, a este nível, é mais moderno que Cesário.

Diminutiva, a poesia do Nobre? Que havemos de lhe fazer? Apouca-nos o autor-Só?

Cheia de bons sentimentos, claro, mas sabendo que também com eles se faz boa arte, bom conversar-te.

Os da sociologia tomam tudo demasiado à letra (nesta primeira fase). Ora, nenhum poeta pode ser tomado assim à letra. O acto de poesia é um acto de ironia. O viés irónico do Nobre tem de ser percebido, senão caímos numa grande maçada, que é gostarmos do Nobre contra nós mesmos. O barquinho com o «erro de ortografia» do Nobre, se tomado à letra, é defesa do obscurantismo. Não tomado à letra é matière, como a dos errados bonecos de barro que ornamentam as nossas prateleiras…

Nobre é sintomático? Encantados da vida! Mas sintomático de quê?

Cesário tinha ferramentas na loja da Rua da Madalena e o pomar, que ele queria muito industrial, em Linda-a-Pastora. Nobre, a quinta dos pais no Entre-Douro-e-Minho, a Carlota, etc., etc. Os dois tiveram a tísica, o que não era difícil na época. Provavelmente, cada um é sintomático disso mesmo. E depois?

A gordura do Sá-Carneiro (não confundir com o actual político, que é magro), a gordura dele, que era um Nobre enxundioso, é um toucinho que pouco pesa se a tomarmos à letra. Já sabemos que é uma chatice ser goooordo! Ó menino-esfinge-gorda, papa a açorda, dá os golpes de asa que quiseres e cai na açorda outra vez enquanto almejas pelo azul e não tombas de vez na estricnina. O teu drama humano não faz escalada em nós. A tua ironia e o teu transmudares-te e objectivares-te nela, esses sim! Carneiro particular, não! Carneiro comum? Viva ele! Foste reaccionário? Se calhar foste… mas acalma-te, rapaz, que nós, os puros, já te recuperámos do teu bater de asa…

O Nobre influenciou todos. Até o Boi da Paciência do Ramos Rosa é Nobre, só que lavra papel costaneiro em vez de terra friável. Até o Herberto Helder é Nobre, com a sua anarcolírica. Até a Sophia é Nobre, com quinta no mar e charrete puxada a gaivotas. Até o Eugénio é Nobre, assim tão só! E se calhar não será Nobre o Cesariny, tão Lusitânia no Bairro Latino? E o Melo e Castro? Que Nobre! E o Egito Gonçalves, tão neo-Nobre? E o Carlos de Oliveira?

Todos somos Nobres, menos um: Gomes Ferreira, que é Junqueiro (Pátria) – ou será Raul Brandão, o remorso que sobrou do remorso de Raul Brandão?

Fiz propositadamente happening para tentar mostrar que ser-se Nobre é ser-se a grande incoerência e a grande impotência que somos todos, hoje, perdão, que éramos todos, ontem.

Em certo sentido, todos herdámos as qualidades e os defeitos do Nobre, todos visitamos o povo aos domingos, todos gostamos muito da nossa terrinha, todos sabemos evocar, entisicar, devanear, aluar, errar. Em certo sentido, todos somos falhados e «conseguidos» como o autor do .

Mas de quantos de nós ficará a conversa como ficou, por encanto, por enquanto, a dele?

Por favor não nos tomem à letra! Bem pode acontecer que, ironicamente, sobre algum de nós para o centenário…

E muito juizinho, que vem aí o super-Cesário!

 

«Uma olhadela para António Nobre»: Flama, 30 de Agosto de 1974.