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O director do sexo

Acho que o Movimento de Libertação das Mulheres se devia mover também para ajudar a liquidar o folclore machista que com certeza invade a casa portuguesa. O mais infame adagiário galispante anda por aí espalhado em azulejos, cerâmicas, bordados, letras de fados, bandeirinhas de manjericos, anedotas, nacos de prosa castiça, etc. e chiça!

Parece que ninguém (nem as próprias mulheres) se importa muito com isso. Até entre os homens chamados progressivos há uma tácita cumplicidade no tocante a uma certa ideia do que seja o peculiar comportamento mulheril. Desde o benigno desabafo «Coisas de mulheres!» até ao nojentíssimo «Cá em casa manda ela / Quem manda nela sou eu», o complexo de inferioridade que acompanha o homem português tem insultado a mulher sob todos os pretextos e sob todas as formas. Eu não quero ser mais papista que a papisa, mas acho urgente que se psicanalisem, sob a óptica do antimachismo, a literatura e a arte portuguesas de há várias décadas a esta parte. Assim como recentemente se estabeleceu, num estudo muito fundamentado e arguto (Surréalisme et Sexualité, Xavière Gauthier), que, para o surrealismo francês, a exaltação da mulher e do «amor louco» não é mais, afinal, do que a forma (nem sempre subtil) de reduzir a mulher a objecto de prazer, assim também se deveria indagar a que papel têm humilhado a mulher os escritores e artistas do nosso país, tanto os de expressão erudita como os de expressão popular.

Creio que haverá uma imensa pesquisa a fazer neste campo inexplorado. Creio, também, que não basta ficar-se tranquilamente pela reivindicação «para trabalho igual, salário igual», embora ela, satisfeita, venha a modificar o curso dessa trabalhosa história que dá pelo nome de «os homens e as mulheres». A sensibilidade reaccionária sobrevive, muito tempo, às situações que lhe dão origem e, se não estivermos atentos, outras formas de discriminação podem instalar-se entre o homem e a (sua) mulher. E nem sequer me consola a democrática ideia de que, hoje, a mulher é livre de responder criticando o homem ou pondo-o a lavar a loiça e a mudar fraldas. No homem-álibi nem o próprio homem-álibi já acredita…

O que é urgente é passar-se à ideia outra de que ninguém tem o direito de se afirmar e ocupar, no mundo, o lugar que julga que é o seu – em detrimento seja de quem for. Posta esta peregrina ideia em quotidiana prática, domínio e servidão serão, por consentimento mútuo, apenas figuras de um jogo superior: o do amor de morte que vincula o homem à mulher. (E caberia aqui citar a profecia de Rimbaud: «Quando for quebrada a infinita servidão da mulher, quando ela viver por si e para si, “despedindo-a” o homem, até agora abominável, ela será poeta, ela, também! A mulher encontrará algo do desconhecido! Os seus mundos de ideias diferirão dos nossos? – Encontrará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; serão vistas por nós e compreendidas.»)

Porque não começar a organizar os «Arquivos do Machismo?» Daqui lanço um apelo aos leitores para que juntem e me enviem os seus testemunhos e achados pessoais, desde simples casos sabidos ou vividos, até às peças literárias e artísticas que entendam conveniente seleccionar. Para restringir o campo e definir bem um objectivo, proponho-vos um primeiro tema: Para a história de um longo vexame, o da mulher.

Vamos «sanear» esse Director do Sexo que tem sido o nosso tão homenzinho português?…

 

P.S. – Escrevi a presente crónica no Algarve, numa casa alugada para um fim-de-semana prolongado. Não é que fui encontrar a um canto, já concluída esta prosinha, um prato folclórico de parede com uma quadra que conversa assim:

 

As mulheres quando se juntam
a falar da vida alheia
começam na lua nova,
acabam na lua cheia!

 

«O director do sexo»: Flama, 21 de Junho de 1974.