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Notícia sobre Manuel Bandeira

POEMA DE FINADOS

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai; mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero,
E em verdade estou morto ali.

MANUEL BANDEIRA, Libertinagem

 

Manuel Bandeira é a mais alta expressão poética do Brasil. Ele diz que não: que é Mário de Andrade. Mário de Andrade diz que não: que é Manuel Bandeira. Mário de Andrade diz bem.

Da Cinza das Horas à Lira dos Cinquent’Anos está condensada a experiência mais completa da poesia brasileira. Ele é, sem contestação, o S. João Baptista do modernismo no Brasil.

Desde as formas disciplinadas às formas livres, os seus dedos tocaram toda a escala, sendo ele, sempre e integralmente, um grande poeta.

– Nascido em 1886, no Recife, cresceu por aí fora até ficar, por grave doença nos pulmões, deitado longo tempo na cama, ponteando viola e fazendo poemas sem intenção de publicidade.

Isso aconteceu por volta dos vinte anos: «A vida inteira que podia ter sido e não foi…» Andanças desesperadas pelo Brasil e pela Suíça – onde esteve em contacto com as pegadas de António Nobre e com os mais anunciadores dos movimentos de renovação estética que anunciaram o chamado período moderno – restituíram-lhe grande parte de si mesmo, e ele chega a poder gritar, mais tarde, num estremecimento novo: «Vou-me embora pra Pasárgada!»

Pasárgada é a libertação, a vida total para o poeta. Em Pasárgada é amigo do rei: poderá andar de bicicleta, poderá montar burro-bravo, subir no pau de sebo, fazer ginástica, tomar alcalóide e banhos de mar. «Em Pasárgada tem tudo: é outra civilização!»

– Manuel Bandeira faz parte do grupo de artistas e teóricos que, reagindo contra a decadência parnasiana, iniciou no Brasil o movimento revolucionário de libertação pelo modernismo.

A sua poesia encontra-se agrupada em seis livros: A Cinza das Horas, Carnaval, Ritmo Dissoluto, Libertinagem, Estrela da Manhã e Lira dos Cinquent’Anos.

Dono de uma sobriedade e sentido poéticos afinadíssimos, o Poeta, mesmo na fase revolucionária, mantém sempre o equilíbrio que lhe assegura uma presença viva, actual, para toda a sua poesia. Os poemas dessa fase valem tanto historicamente, isto é, não só como elementos de renovação poética, como valem, também, considerados desde um ponto de vista estético não-revolucionário. O mesmo não sucede, por exemplo, com Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade.

Hoje Manuel Bandeira tem 59 anos. Não foi até Pasárgada, mas também não ficou parado: veio até nós e, agora, acho que ficará para sempre.

«Notícia sobre Manuel Bandeira»: jornal O Castelovidense, suplemento «A Planície», 10 de Dezembro de 1944.