Epitáfios

Coleccionar epitáfios pode muito bem ser uma suave tarefa estival. Além disso, avizinhando-se o Outono e, com ele, a rentrée (salvo seja), convém que se tenha à mão um sortido, tão variado quanto possível, dessas frases rotulares (rupturas…) que os vivos gostam de imaginar que vão ter na tampa depois de mortos… Incito, pois, os leitores – à falta de um Grande Concurso Nacional de Epitáfios, que a imprensa podia muito bem, e muito a tempo, promover – a demorarem-se na salutar meditação sobre a gravidade e a densidade dessas curtas frases definitivas que nos olham nos olhos e que, afinal, são de vivos que nos falam através dos mortos.

Um, que não foi premeditado, antes produto do acaso objectivo, mas que é um belíssimo epitáfio, resume-se na palavra OSTRAS, aposta no vagão selado onde viajou da Alemanha para a Rússia o cadáver de Tchekov. O supremo ironista não desdenharia uma collage desta categoria…

Num plano mais vulgar, temos aquele que podia muito bem ser criação nossa, mas que nos chegou do Brasil:

Aqui jaz
Bento Bexiga
que acendeu um fósforo
para ver se tinha gasolina
no depósito do seu carro
e… tinha mesmo!

E, requintando agora um pouco, aquela fustigação que a Igreja nos faz constantemente para que nos lembremos que não passamos de barro vil:

Nós, ossos que aqui estamos,
pelos vossos esperamos.

Donde Melo e Castro, o mais importante, para não dizer o único, concretista português, podia muito bem tirar o grafismo eloquente:

V’OSSOS

Sem cair no artificialismo da Antologia de Spoon River, mais jogo de comadres que jogo de epitáfios, acrescento a esta primeira amostragem o célebre:

Aqui jaz
Mark Twain
que sempre disse que isto havia de acontecer

E termino (por agora…) com o ainda mais célebre epitáfio stendhaliano, que um piedoso amigo do romancista acabou por estragar com a mania da literatura:

Arrigo Beyle
milanês
Escreveu. Viveu. Amou

Viveu, amou, escreveu – era a sequência pensada e escrita por Stendhal, grenoblés que, mesmo depois de morto, queria homenagear a cidade que mais amou: Milão. Porém, o primado da literatura viria, como sempre, deitar tudo a perder…

 

«Epitáfios»: A Luta, coluna «A Comarca», 26 de Agosto de 1976.