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A marca do surrealismo

O Portugal de meados dos anos quarenta, acabado de sair de uma guerra na qual não tinha entrado, e em que o regime de Salazar por vezes oscilava mas logo se reforçava graças ao apoio da Inglaterra e dos Estados Unidos, era um país culturalmente muito parecido com uma pacata província francesa… A França tinha voltado a espalhar, como sempre aconteceu, as suas ideias prestigiosas e os seus altos valores. Chegava tudo de lá, até a Resistência. E foi mesmo essa Resistência que, encontrando um eco nos corações generosos dos intelectuais progressistas, moldou, em boa medida, a arte e a literatura portuguesas, emprestando-lhes temáticas que, embora não sendo de todo alheias à realidade ambiente, só em parte alcançavam o «país profundo». Outras Resistências, talvez mais importantes (a italiana, a jugoslava, etc.) não se conheciam… E não esqueçamos também que, naquela altura, não havia cidadão que não balbuciasse um pouco de francês…

Contudo, seria injusto não considerar que, neste panorama, estava a formar-se e a afirmar-se um movimento que, nos seus objectivos, se dirigia à realidade portuguesa: o neo-realismo; mas que, nos seus meios, se mostrava absolutamente desprovido. Devido ao facto de ter ido buscar modelos e inspirações às obras do português Ferreira de Castro, dos brasileiros Jorge Amado, Graciliano Ramos e Lins do Rego, de alguns norte-americanos filhos do New Deal, assim como às obras de alguns russos, filhos (ou pais) da Revolução ou da Guerra, a narrativa neo-realista (a França «pesava» mais na poesia, no ensaio e nas artes plásticas) acabou por deixar muito pouco, apesar de os seus apologistas lhe inventarem um passado de grandeza… Em poesia – uma poesia generosa, mas de quem visita o povo aos domingos – o panorama não era melhor. Quais os nomes que se salvam de todo esse período? Apesar de serem dois ou três, não vou citá-los, para não haver dois sem um terceiro, nem um terceiro com dois a antecedê-lo… Nas artes plásticas (Fougeron não estava longe…) as coisas não mudavam: pés à Portinari, gritos à Siqueiros, chamas à Orozco, quando não era a absoluta monotonia à Guerassimov ou à Fougeron que estava a triunfar em toda a esquerda. É evidente que, ao lado de todo este generoso engagement, havia artistas e escritores genuínos que continuavam a trabalhar, mas o  faziam refugiados na natureza morta das suas vidas, como quem não pode ou não quer perceber o que está a acontecer na periferia do seu mundo. Por isso, o drama do português dado às artes e às letras, ao longo dos anos quarenta, foi não perceber que a grande, a real aposta seria fazer aquilo que eu chamo uma literatura e uma arte de inventário: aquilo que, passado o 25 de Abril de 1974, conseguiu realizar (mas parece que sem consequências e sem que ninguém se tenha apercebido!) Maria Velho da Costa, com um esplêndido texto, que poderia ser um autêntico programa de trabalho, chamado Revolução e Mulheres. Esta literatura e esta arte de inventário, que podiam poupar ao público português muita poesia musculada, muito realismo de ferro-velho e muitas cores derramadas, ficaram no tinteiro e na paleta; e, no final, o que surgiu de tudo isto foi um infinito corredor cinzento, que aparentemente dava para um dia a dia que nos venderam como «a realidade», mas que, na melhor das hipóteses, apenas se tratava de um engano diariamente frequentado, e até mastigado pela má consciência de uma pequena-burguesia petulante com dor de povo… Hoje, quando lemos os produtos típicos daquela época, sentimos vergonha por causa da inanidade presumida daquilo que se «literatificou» e se «artificou» na altura. Contudo, devido à nostalgia que sempre nos anima (e nos trai), temos vontade de amar muitas daquelas coisas. É a partir daqui que aparecem as desculpas mais rebuscadas, como: «o contexto da época…»; ou: «era o que se podia fazer naquelas circunstâncias…»; e assim em diante.

Prossigamos.

O surrealismo, em Portugal, toma forma de movimento nesta época. Parte da recusa de continuar a tolerar a monotonia de uma literatura e de uma arte falidas nos seus generosos (passo o adjectivo) objectivos. Três ou quatro poetas e pintores que se tinham estreado no engagement neo-realista entram em conflito com alguns conceitos muito partilhados na altura, como o célebre mot d’ordre: «é preciso escrever de forma comum para as pessoas comuns». Em ruptura com tais conceitos e suas realizações práticas, mesmo sem negar o valor social da literatura e da arte, este grupo pequeno queria comunicar de outra maneira com o público. O uso do absurdo (Portugal era uma mina inesgotável de absurdo), operação que consistia em desmontar a realidade aparente e voltar a montá-la numa realidade claramente teratológica, estava entre as preocupações diárias daquele grupo que, sem se dar conta, praticava actividades que podemos definir como paradadaístas. Refiro-me às jornadas de Cesariny e dos seus amigos do Café Herminius, divididas entre literatura, arte e boutade; refiro-me à cruel sátira cesarinyana chamada Nicolau Cansado, Escritor, que consistia na antologia poética de um fictício Cansado que era o impiedoso retrato de muito neo-realismo e muito «presencismo» então em vigor; refiro-me ao meu encontro com Cesariny, à primeira ideia de formar um grupo surrealista, aos nossos contactos com amigos poetas e pintores para tentar formar o primeiro núcleo, etc. E também me refiro (e com isto creio render-lhe uma justiça necessária) ao brasileiro Carlos Drummond de Andrade e à influência que a sua poesia teve sobre nós enquanto proposta de desarticulação do discurso poético («De tudo fica um pouco / às vezes um botão / às vezes um rato»). Por último, refiro-me ao quadro dadaísta de Cesariny, O Operário, que eu e ele levámos pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, e que foi sem dúvida uma das primeiras exposições ambulantes realizadas em Portugal…

Desta confluência de actividades, às quais o conhecimento dos manifestos de Breton deram consistência e teoria, nasceu finalmente o Grupo Surrealista de Lisboa, a primeira manifestação da vontade de sair do beco em que a nossa República das Letras e das Artes se confinara.

Quanto entusiasmo, nesse tempo! Colagens, textos colectivos, a exaltante descoberta de que se podia escrever, pintar, desenhar colectivamente, rompendo com o individualismo progressista-burguês!

A seguir, segundo a boa tradição dos grupos surrealistas, começaram as cisões, as exautorações, os manifestos contra isto e aquilo; tudo em nome de uma ortodoxia e de uma pureza que, no plano teórico, não se sabia bem o que era, mas que, no plano prático, não era difícil formular. Na verdade, o reaparecimento da mais detestável «literatura» («Lits et Ratures») continuava a sentir-se nas obras dos mais «respeitáveis cultores» do surrealismo, mesmo disfarçada, de maneira que o estranho, o exótico, o incoerente, o automático, o maravilhoso, o objectivo-encontrado-por-acaso tomavam sempre mais o aspecto de tique, de maneirismo. Também entre nós, o academismo surrealista começava a aparecer e a organizar-se. Com a palavra-bibelô repetia-se, à distância de vinte anos ou mais, o que em França e noutros sítios já acontecia: pernas postiças, manequins, animais fabulosos, tesouras e cola, objectos quotidianos desviados do seu uso comum e promovidos à dignidade de objectos artísticos, seios, genitais, coxas, ossos, começaram a sair dos caixotes do lixo, dos ferros-velhos ou dos sótãos privados, para entrar no grande sótão comum do academismo surrealista. Breton tinha recomendado calorosamente que fôssemos à procura dos nossos antepassados na cultura portuguesa; mas nós, provavelmente porque sabíamos que no nosso passado não havia nenhum Jarry ou Lautréamont, não demos importância à sua sugestão: e quantas coisas teríamos podido descobrir e valorizar! (Penso, por exemplo, para não nos afastarmos muito, nas fatrasies, na nossa poesia popular, na qual o estro e a fantasia se cultivam com tanta imaginação.) Pelo contrário, ficámos apenas com algumas amostras do delírio de Gomes Leal, alguns fragmentos do visionarismo de Teixeira de Pascoaes, com a descoberta do enciclopedista nosso contemporâneo Paulo Cantos…

Mas…

… não obstante todas as fraquezas e limites de um movimento aparecido em Portugal com quase trinta anos de atraso desde a sua deflagração francesa; apesar da infeliz circunstância de não ter conhecido tempestivamente, por causa do predomínio francês, os dadaístas alemães (penso em Schwitters), cujo exemplo de contestação e de libertação teria podido dar um empurrão ao nosso movimento; apesar das nossas dispersões em políticas de grupo e afins, o surrealismo deixou em Portugal uma marca indestrutível, e, a partir do seu aparecimento, nada ficou como antes na República das Artes e das Letras: tanto que pequenos artistas «à Ia surrealiste» começaram a surgir em todo o lado, até entre os velhos representantes da bem-pensância nacional. A moda estava lançada. Entre toda a bijutaria resplandeciam, porém, e continuam a resplandecer, jóias autênticas.

No que me concerne directamente, após um pequeno fervor de participação que não chegou a destruir, felizmente, o tipo de poesia que estava a produzir, posso afirmar que o surrealismo agiu sobre mim mais como detonador de uma libertação e de uma criação colectivas do que como projecto individual de escrita. Que rasto ficou, nas minhas poesias, do surrealismo? Deve ser bastante subtil, porque eu também não consigo vê-lo. A verdade é que eu, já na altura, preferia, usando uma terminologia aproximada, o falar ao imaginar. E aqui fiquei…

Deo gratias!

 

Lisboa, Maio de 1978

 

«A marca do surrealismo»: Quaderni Portoghesi 3, Primavera de 1978.