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Estórias Quadradinhas: A Condessa e a Guerra

Ah, condessa, ali sentada, o loiro dos cabelos cascateando,
você arredondava para mim o milagroso, o angélico
giolho, o coxim, que no bom-mau do sonho, me recebe
a voadora cabeça! Açúcar dos açúcares,
açucena das açucenas, charneira do céu e do inferno,
seu joelho,
condessinha!

E para quê o feio objecto coronha no seu joelho,
a feia palavra coronha neste papel?
E para quê o cigarro que, em desdenhosa curva,
lhe saltou, ordinário, para os lábios?
Queria lume. Dei-lho, não lho dei, condessa?

Fiz tudo para que você dali saísse,
abandonasse a postura quase brincada de quem, vez primeira,
espera ver surgir pela frente, em seu trabalhoso afã,
um farejador hipopótamo de aço para o crivar de… alfinetes!

Essa guerra não era sua, ó menina da saia soerguida!

Até lhe prometi casamento, lembra-se?
Que fez você, em resposta? Virou o conta-gotas para mim,
pronta a telegrafar-me o seu desprezo.
Deixei cair a Nikon.
Um par de contos que a guerra me devorou!

De que lado estava você?
De que lado estava o seu joelho?
Do seu lado ou contra si?
De que lado estava, afinal, cada lado?

Era uma guerra absurda, eu disse-lho!

Mas você teimava, teimava como aquele seu antepassado
cavaleiro que morreu,
horror e pundonor,
em Salvaterra!

*

Descansa em paz, condessinha-das-barricadas!
Morta, a família recuperou-te o nome e as datas
em custosos mármores vazios de ti.

Teu joelho subiu ao céu.
Tua cascata loira parou de correr, encaracolou-se
e subiu também.

Por mim, deixei de bater chapa.

Uma única imagem incessantemente me visita:
a do teu giolho,
açúcar dos açúcares,
açucena das açucenas,
charneira do céu e do inferno,
ó
condessinha!