António Pedro

[Agosto de 1952]

Meu Caro Pedro,

 

A sua carta («Chove monstruosamente») apanhou-me de pijama e a ler o Manuel de l’officier de réserve de Cavalerie – um rico livro para «estragar»…

Mas isso já foi no domingo!

Daí para cá tenho andado numas «correrias» que põem a família num delicioso pânico!

Finalmente conseguimos a nossa primeira noite!

A loucura que você pode calcular! De dar turras nas nuvens! Depois «eu lhe conto»!

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Tem razão! O «Só Gomes Leal» resultou pobre e pouco violento! A coisa sofreu de precipitação. Precisava de ter sido mais passada pela fieira.

No Diário de Lisboa podiam ter dado um aspecto melhor àquilo.

Em todo o caso os resultados não têm sido maus.

A «linha» Rodrigues foi a primeira (é claro!) a acusar o toque.

«Lá li as vossas obras completas» – o rapaz, anh! – «É falso o que vocês dizem! Nós também considerámos o poeta!» Mas, segundo disse o Moniz – a vítima da dita «linha» – o tipo estava irritado a valer! «E onde é que V. viu essa tal poemorreia a mote?!»

«No Vértice, por exemplo» respondeu o Moniz. (Lembro ao Pedro que a poemorreia do Vértice era metade do Armindo…). Parece que a «conversa» não foi, depois disto, mais adiante.

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Um centímetro cúbico «amigo» do Domingues também disse ter lido a coisa. Não gostou, claro. Então o Domingues perguntou-lhe se reparara no «ataque à religião» que se fazia nessa proclamação. O outro disse que sim e mais que também mas que o ataque não era só à religião! Coitado! Não lhe pudemos fazer a vontade…

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Etc… Etc… Não há dúvida que, apesar de pobrezinha, a nossa denúncia (e defesa) tem dado resultados. Quase todos os tipos engolem muito em seco… Muitos gostam – e espantam-se com a censura!…

Creio que a sua introdução e o estilo bailarino (toureiro!) do nosso amigo França é que salvaram a coisa da tesoura. Entre o «público em geral» tenho notado um certo espanto por terem passado aqueles versos «Molhai, rasgai, mordei quem fez a lua e as flores!»

E não é de espantar!

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Há um sujeito que pretende entrar no grupo! Diz que se sente perfeitamente identificado connosco.

Chama-se Pedro Oom – foi colega dos nossos publicitários na António Arroio, e era, até aqui, considerado um grande calino por todos eles. O Cesariny, que tem estado em contacto com ele, diz-me que o dito Oom faz umas coisas muito engraçadas e dignas da nossa atenção. Esperamos a sua chegada para se discutir tudo isso. Em todo o caso, não deixa de ser consolador verificar que a nossa simples existência atrai mais um neo-realista!

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Ao «um dia é igual a outro dia» pode acrescentar-se, quando não «chove monstruosamente», aquela: «se não esperas o inesperado não o encontrarás, porque é penoso e difícil encontrá-lo». E à «os olhos e os ouvidos são maus testemunhos para aqueles que têm almas bárbaras» pode, também, acrescentar-se aqueloutra: «Os homens, no seu sono, colaboram com os acontecimentos do universo».

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Espero que se sinta melhor. O salto brusco duma grande agitação para a Praia de Moledo – Minho² – deve tê-lo deixado um pouco aturdido, mas tinha que ser assim. O Pedro sabe aonde ia parar se continuasse mais tempo naquela agitação?…

Espero, também, que a Sr.ª D. Maria Manuela se encontre melhor e mais sossegada com a sua presença.

Por hoje paro.

Desculpe a carta, que vai desconchavada como burro!

Então o jovem director do Vértice? Já pôs à nossa disposição alguma página?…

Brevemente escrevo. Cumprimentos, saudades…

O’Neill

Lisboa, 3.8.58

Meu Caro António Pedro:

Cordiais saudações!

Espero que em Moledo – e mesmo sem ter conseguido avistar-se com os patrões da cultura – esteja mais bem-disposto do que aqui.

Venho hoje maçá-lo com a entrevista para A Semana, confessando-lhe desde já que estou um pouco embaraçado com as perguntas que devo fazer-lhe, pois elas dependem muito dos pontos que o Pedro desenvolver e da maneira como os vai desenvolver. Se estiver de acordo, sugiro uma série de pontos e, logo que receba o seu texto, faço uma montagem com perguntas e respostas, isto é, à laia de entrevista. Claro que esta minha montagem ser-lhe-á submetida antes da publicação, para que não haja equívocos desagradáveis e o Pedro possa rectificar-se e rectificar-me. Pretendo fugir às entrevistas calistas, às entrevistas que pretendem fazer supor que as declarações são colhidas e feitas sem preparação, género «Então António Pedro sorriu, cofiou a barba, e respondeu sem hesitações, etc., etc.». Farei a apresentação (desnecessária no seu caso) do entrevistado e depois, sem mais nada, pergunta e resposta e pergunta e resposta.

Julgava de interesse que, entre outros, abordasse o Pedro os seguintes pontos:

  • O que é ou deve ser o Teatro;
  • Filosofâncias pseudo-progressivas sobre o Teatro;
  • Possibilidade (a longo prazo) e impossibilidade (a curto prazo) de fazer o chamado Teatro de Vanguarda em Portugal;
  • Educação do público;
  • Formação de actores;
  • Escolha de repertórios;
  • Concorrência do cinema;
  • Originais portugueses;
  • Hostilidade ou indiferença dos meios oficiais perante as companhias semi-profissionais ou profissionais de fresca data;
  • Subsídios;
  • «Macacadas» subsidiadas;
  • A importância do Teatro como divertimento;
  • O Teatro como forma «exemplar» de educação;
  • O «sorvedouro» S. Carlos como exemplo do mau investimento de fundos;
  • O Teatro de Cordel (ladinamente aproveitado…) como meio de «habituar» o público rural ao que há de fundamental numa peça;
  • O TEP e a sua experiência como formação de amadores e como grupo profissional.
  • Etc., etc.

Estes pontos, desordenadamente postos, talvez sirvam para dar ao Pedro uma ideia, ainda que vaga, do que são as minhas curiosidades e as curiosidades dum público desiludido do que, em matéria de teatro, se vai fazendo por essa Lisboa.

À minha inexperiência como jornalista e espectador terá o Pedro a bondade de corresponder com os seus sugestivos conselhos e originais pontos de vista.

Desde já se confessa muito grato, o

O’Neill

P.S. – Mando-lhe juntamente dois artigos do Orlando Vitorino que, como persona grata, talvez possa servir para citar (se não for de todo «burro»);

P.S. (2) – Tínhamos certa urgência na sua resposta.

 

Um abraço do

O’Neill

Rua Passos Manuel, 15-2.º Esq. “A” Lisboa

NOTA
Espólio de António Pedro (Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea – Biblioteca Nacional de Portugal)